História do município
HISTÓRIA DO MUNICÍPIO DE PONTÃO/RS
Pontão: Entre a Ponta de Mato e o Tropeirismo
O nome Pontão tem sua origem na expressão “Ponta de Mato”, uma referência geográfica marcante para os tropeiros que percorriam o Rio Grande do Sul nos séculos XVIII e XIX. Esses tropeiros vinham de São Paulo e da fronteira do Estado, passando por vários campos, e encontravam, nesta região, uma formação de mata fechada — a famosa “ponta de mato” — termo usado para descrever uma formação natural composta por uma faixa de mata e um valo que se destacava na paisagem da região. Esta “ponta de mato” era localizada entre o atual distrito de Igrejinha (Coqueiros do Sul) e o território que viria a ser Pontão.
Ao longo dos séculos XVIII e XIX, o tropeirismo constituiu-se numa das principais formas de integração econômica e territorial do sul do Brasil. Tropas de muares e gado percorriam grandes distâncias transportando animais, insumos e mercadorias entre os campos gaúchos, as províncias mineradoras e mercados da região sudeste — atividade que produziu redes de circulação, pontos de pouso e referências topográficas que viriam a dar origem a povoados e cidades.
A origem de Pontão guarda relação direta com a geografia das rotas tropeiras. O topônimo “Pontão” deriva de “Ponta de Mato” — uma formação de mata e um valo que servia de referencial para tropeiros que pernoitavam na região, recolhendo animais em piquetes e utilizando o local como abrigo temporário. Essa condição de parada de tropas favoreceu a formação das primeiras moradias e o surgimento do povoado que viria a consolidar-se como Pontão.
O tropeirismo não foi apenas atividade de transporte: foi vetor de povoamento, circulação de informações, cultura material e trocas comerciais. Nos municípios do Norte gaúcho, a rota das tropas dinamizou mercados locais, incentivou o surgimento de estâncias especializadas na criação extensiva de gado e promoveu a integração entre áreas distantes. Ademais, as trochas e picadas abriram corredores que influenciaram a localização de estradas, ferrovias e povoados futuros.
Registros locais apontam que, já no início do século XIX, a ponta do mato funcionava como área de descanso e logística para o trânsito de tropas entre as grandes fazendas da região (Sarandi e Cedro). Ao longo do tempo, pontos de pouso e travessias mantidos pelos tropeiros consolidaram-se como referentes fixos na paisagem, servindo de núcleo para o posterior desenvolvimento das comunidades rurais.
Esta “Ponta de Mato” pertencia a Fazenda Sarandy, anteriormente denominada Bugre Morto (conforme procuração de 02 de agosto de 1872 registrada na cidade de São Paulo). Os Autos de número 554 e a verificação de posse de 18 de abril de 1871 em nome de Luiz Pereira Campos Vergueiro que a maior parte das atuais terras pertencente ao município de Pontão foram do Barão e Baronesa de Antonina[1] e posteriormente transferidas para a família Vergueiro que eram genro e neto do referido Barão. (KUJAWA, 2015)
Por volta da década de 1870, a região fazia parte de duas grandes propriedades rurais: a Fazenda Sarandy, pertencente ao Capitão João Vergueiro (pai do Dr. Nicolau de Araújo Vergueiro, intendente de Passo Fundo)2, e a Fazenda Cedro, de propriedade do Coronel Antônio Ramos Barroso[2], conhecido como Tico Barroso — figura de destaque e avô do deputado estadual Guaraci Barroso Marinho, um dos grandes defensores da emancipação de Pontão.
O povoado de Pontão começou a se formar exatamente na ponta da Fazenda Sarandy, onde se estabeleceram as primeiras seis ou sete casas no início do século XIX. Essas construções eram ponto de parada obrigatória para tropeiros e viajantes, criando as primeiras relações de comércio e convivência social na região.
No ano de 1906, parte da Fazenda Sarandy foi vendida por Nicolau Araujo Vergueiro aos uruguaios José Antônio Lápido, Júlio de Mailhos e Luiz Mourino, que passaram a explorar os campos da região.
Em 16 de junho de 1922 os senhores Júlio de Maílhos, Luiz Mourino e José Antônio Lápido doaram uma gleba de 156.250 m² (cento e cinquenta e seis mil duzentos e cinquenta metros quadrados) proveniente da antiga Fazenda Sarandy para construção de uma igreja e uso comunitário na povoação que viria a ser Pontão.
A descrição das confrontações da área doada aparece descrita nas fontes locais como: Norte e Leste: divide-se com a Fazenda Sarandy por cerca de arame; Sul: dividese por um valo com a Fazenda do Cedro; Oeste: com “a sombra do mato” até o prolongamento da cerca. Conforme mapa Figura 01 (Construção do território na região de Ronda Alta).
Quanto ao fato de constar em documentos históricos delimitações como sendo valos, cumpre registrar que em tempos remotos essa era uma das caracteristicas das demarcações das propriedades no sul do país, mas não só no sul, onde se utilizava, além dos valos, cercas vivas e pedras. As delimitações com utilização de cercas de aramados só passou a ser utilizada apartir de 1870, com a importação de arame pela provícia. Diferentemente das regiões da Serra Gaúcha, onde as divisas eram predominantemente feitas por cerca de pedras/taipa de pedras pela ambudância dessas, na região de Pontão – RS utilizava-se valos artificiais que serviam para delimitar propriedades e também como barreiras de contenção para gado e ovelhas. Ainda hoje é possível encontrar esses valos descontinuados em pontos de terras não agricultáveis no interior de Pontão - RS. Sobre a utilização de valos como divisa e contenção para animais, dentre outras, há publicações que podem serem acessadas no site Curral Del Rey. (BORSAGLI, 2022)
Figura 01 - Mapa: A construção do território na região de Ronda Alta - 1831-1917. Convênio UFRGS (Universidade Federal do Rio Grande do Sul) - Prefeitura Municipal de Ronda Alta.
Por volta de 1910, logo após a venda da fazenda, surgiu a primeira aluna da comunidade e as aulas passaram a ser ministradas em uma casa que também era usada para bailes e eventos sociais. Em 1937, o espaço foi transformado na Escola Alberto Torres, que funcionou até ser oficialmente criada por Decreto nº 7.249, em 14 de março de 1949.
Das Tropas ao Galpão: a História do CTG Recanto dos Tropeiros
Como reconhecimento da importância dos tropeiros para a formação do município, os pontanenses nominaram o CTG local como Recanto dos Tropeiros. Esse CTG constituiu-se como entidade formal em 1995, sendo registrado como associação destinada à promoção das tradições gaúchas e ao desenvolvimento de atividades socioculturais no município de Pontão. A documentação pública aponta a data de fundação registrada em 28 de setembro de 1995 e indica o registro como organização da sociedade civil com sede na Rua José A. Lápido, no centro da localidade. (Fonte: Mapa das OSC+1)
A construção do CTG teve início na primeira Administração Municipal, prefeito Aldo Formihgeiri, em 1993, e consistiu em um galpãozinho, na praça. Em em 1995, um grupo de pessoas formado por empresários e agricultores, deu inicio a construção do CTG propriamente dito. Em mutirão, a comunidade contribuiu com a doação de madeiras, telhas e tijolos. A Administração Municipal teve suma importância com o auxilio de todo o maquinário. O tema escolhido foi: Gaúcho ontem; tradicionalista sempre!
A primeira patronagem eleita teve como patrão da entidade Sr. Luiz Paulo Dall Oglio e sua esposa Sra. Simone Bortoluzzi Dall Oglio.
No ano de 2004 foi realizado o primeiro concurso de Prendas e Peões do CTG, sob a patronagem da sra. Loesa Roos (in memoriam) e seu esposo, Sr. Otemar Roos. Na ocasião foi eleita a primeira prenda adulta a Srta. Tabata Cris Bortoluzzi Dall Oglio.
Desde sua criação, o CTG assumiu o papel de polo de preservação e difusão das práticas tradicionalistas locais — abrigando invernadas artísticas, eventos campeiros, encontros culturais e atividades educativas com escolas e grupos do entorno. Registros de imprensa e comunicação municipal demonstram a participação do CTG em eventos institucionais, apresentações escolares e etapas regionais de festivais de arte e tradição (Ciarts/ENART), sinalizando sua inserção na rede tradicionalista da região. (Fonte: Facebook+1)
Ao longo das últimas décadas, o CTG passou por períodos de maior e menor atividade. Relatos e notícias recentes apontam para uma retomada de atividades com eventos que reuniram a comunidade, reforçando o caráter de centro cultural e espaço de sociabilidade em Pontão. Além das apresentações artísticas, o CTG organiza festividades locais — almoços, campeonatos de bocha, campeonatos de jogos de salão e cursos de danças gaúchas — o que aponta para um papel multifuncional na vida comunitária. (Fonte: Rd Planalto+1)
A gestão da entidade também é parcialmente documentada e constata-se que sempre houve uma preocupação com a manutenção das atividades e projetos do CTG. A presença ativa em redes sociais (Facebook e Instagram) e a divulgação de cursos e eventos atestam ações recentes de comunicação e mobilização cultural. (Fonte: Facebook+1)
Em termos de patrimônio imaterial, o CTG representa um núcleo local de transmissão de saberes tradicionalistas — danças, músicas, práticas campeiras e festejos cívicos — e atua como articulador entre escolas, prefeitura e demais CTGs da região. Registros fotográficos e vídeos de apresentações (postados por veículos locais e pelo próprio município) documentam essa interlocução contínua entre instituição e comunidade.
Do conflito à ocupação: a história da Reforma Agrária e do Acampamento Natalino
Em 1944, parte da Fazenda Sarandi foi vendida a Ernesto José Annoni. Décadas depois, em 03 de março de 1972, parte dessas terras foi desapropriada por meio do Decreto nº 70.232/72, assinado pelo então presidente Emílio Garrastazu Médici.
A desapropriação gerou intensa resistência judicial, mas, enquanto o processo seguia, em 29 de outubro de 1985, cerca de 1.500 famílias oriundas de 32 municípios invadiram as terras, criando o histórico Acampamento Natalino[3] — considerado um dos marcos do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST)[4] e do Primeiro Plano Nacional de Reforma Agrária.
Segundo Simone Lopes Dickel (2023, p.135), o assentamento da Fazenda Annoni teve início em 07 de novembro de 1986, contemplando 406 famílias — entre parceleiros do INCRA, desalojados pela construção da Usina Hidrelétrica do Passo Real, acampados, posseiros e ex-empregados das fazendas.
A destinação definitiva dos lotes só ocorreu em 1987, após os trâmites burocráticos da desapropriação. Muitas dessas famílias haviam se dispersado pela região por quase duas décadas, esperando uma solução do governo.
O assentamento da Fazenda Annoni foi organizado em áreas denominadas Área 01 a Área 16, além da Área Floresta e Área Passo Real — estas últimas criadas especialmente para atender famílias desalojadas pela construção da Barragem do Passo Real, no início da década de 1970. Essas famílias tiveram prioridade, pois perderam suas terras e meios de subsistência devido à obra da usina hidrelétrica.
Da Tradição à Autonomia: A Formação e Emancipação de Pontão
O município de Pontão foi oficialmente criado em 20 de março de 1992, pela Lei nº 9.604, sancionada pelo então governador Alceu Collares, com instalação em 1º de janeiro de 1993.
A emancipação foi precedida de plebiscito realizado em 10 de novembro de 1991.
Figura 02 - Material de divulgação para plebiscito de Pontão. Acervo Histórico Prefeitura Municipal de Pontão.
O plebiscito teve a participação de 1.324 eleitores, sendo que desses, 1.068 votaram sim e apenas 238 votaram não. A esmagadora maioria da parcela da população que votaram pela “não emancipação”, estavam localizados geograficamente na antiga Fazenda Anonni que pertencia, parcialmente, ao município de Sarandi, que era próximo e onde mantinham negócios.
Figura 03 - Ata de apuração e proclamação plebiscito de Pontão. Acervo Histórico Prefeitura Municipal de Pontão.
O primeiro prefeito eleito foi o ilustre Sr. Aldo Formighieri que, disputando com Israel de Quadros Martins e Isaias Antonio Vedovatto, obteve 44,62% dos votos nominais.
Figura 04 - Relatório Tribunal Regional Eleitoral da primeira eleição do município de Pontão/RS. Acervo Histórico Prefeitura Municipal de Pontão.
Passados 33 anos de emancipação, o município hoje apresenta os seguintes dados:
- Área territorial: 502,709 km²
- População (censo mais recente): 3.296 habitantes
- População estimada: 3.350 habitantes
- Densidade demográfica: 6,56 hab/km²
- Escolarização: 99,16%
- IDHM: 0,725
- Receita bruta realizada (2024): R$ 52.787.285,41
- Despesas brutas empenhadas: R$ 45.364.598,16
- PIB per capita (2021): R$ 103.467,34
A emancipação de Pontão só foi possível graças ao incremento populacional proporcionado pelo assentamento da Fazenda Anonni (mais de 400 famílias) e pelas famílias vindas de Ibirubá/RS, reassentadas em diversas comunidades, especialmente na Comunidade Passo Real e na Sagrisa.
Essa diversidade de origens formou um município rico em cultura e oportunidades, transformando Pontão em um território fértil e promissor.
Ainda assim, desafios permanecem: passados 40 anos do assentamento da Fazenda Anonni, cerca de 40 famílias aguardam os títulos definitivos de suas terras. Essa insegurança jurídica preocupa a comunidade, especialmente diante de recentes e injustas reivindicações de grupos indígenas, que buscam se apropriar de cerca de 50 mil hectares de terras produtivas, incluindo quase a totalidade dessa area da Fazenda Anonni.
Comunidades de Pontão – História, Cultura e Desenvolvimento
Pontão foi se consolidando como município a partir do crescimento dessas comunidades agrícolas e da chegada de novas famílias. Além das áreas do Assentamento Annoni, outras comunidades tiveram papel essencial, como Pinheirinho, Lagoa Bonita, Arvoredo e Linha Bevilaqua, cada uma com sua própria história de formação.
Duas comunidades merecem destaque especial:
- Bugre Morto, que remonta à época dos Tropeiros, carregando um importante valor histórico.
- Sagrisa, formada a partir do reassentamento de famílias desalojadas pela construção da Barragem do Passo Real, consolidando o projeto de reforma agrária na região.
Das Andanças Tropeiras à Comunidade Bugre Morto
A Comunidade Bugre Morto, localizada no atual município de Pontão – RS, carrega em seu nome uma marca da história regional ligada ao tropeirismo e à passagem dos bandeirantes pelo Norte do Rio Grande do Sul. A origem da comunidade Bugre Morto remonta ao período em que os Tropeiros1 por ordem de Gomes Freire de Andrada7, Cristóvão Pereira de Abreu8 e sua tropa dominou todo o sul do Continente em 1736, edificando fortificações para repelir possíveis ataques castelhanos.
Dessa forma, esse caminho atravessava os atuais municípios de Bom Jesus, Vacaria, Lagoa Vermelha, Passo Fundo, Carazinho, Cruz Alta, Palmeira das Missões, entre outros, como pode ser verificado na Figura 05.
Na região de Pontão, naquela época, predominavam os campos abertos, conhecidos como “barba-de-bode”, com poucas áreas de mato denso. Os Tropeiros utilizavam antigas trilhas que cortavam os campos para o deslocamento de suas tropas.
Segundo a tradição oral e relatos históricos, no século XVIII e XIX, durante as expedições de bandeirantes e tropeiros que atravessavam os campos da região — em sua maioria áreas abertas, conhecidas como “barba de bode” — foi encontrado o corpo de um homem à beira do antigo caminho.
Figura 05 - Mapa das ramificações e origem da Rota dos Tropeiros. https://lobi.com.br/aorigem-da-rota-dos-tropeiros/. Acesso em: 17 set. 2025.
Como o corpo já se encontrava em decomposição e apresentava a pele mais escura, foi chamado de “bugre”, termo então usado de forma genérica e pejorativa para se referir a indígenas ou pessoas de pele mais escura. O local passou a ser conhecido como “Bugre Morto”, numa prática comum entre viajantes e tropeiros, que nomeavam pontos de referência para orientação das rotas (ex.: Capão Alto, Passo Fundo, Pontal).
O topônimo resistiu ao tempo e consolidou-se como a designação da comunidade. O “Bugre Morto” tornou-se referência de pouso e passagem, acompanhando a lógica de formação de povoados tropeiros. Assim como outras localidades vizinhas, a comunidade guarda a memória de um período em que a circulação de tropas e expedições foi decisiva para a ocupação e colonização dos campos do norte gaúcho.
Hoje, a Comunidade Bugre Morto é lembrada como um dos marcos históricos da formação de Pontão. Com o tempo, o nome se consolidou e deu origem à comunidade Bugre Morto, preservando até hoje a memória desse episódio que se mistura com a história da colonização e exploração do interior gaúcho. Essa é a narrativa que explica a origem da comunidade, unindo história local, memória oral e o contexto da presença dos Tropeiros no Rio Grande do Sul.
Comunidade Sagrisa – História e Importância para Pontão/RS
A Comunidade Sagrisa teve origem em uma fazenda agroindustrial de propriedade de dois irmãos. O nome Sagrisa é um acrônimo de Sociedade Agrícola S.A. Após o falecimento dos proprietários, as terras permaneceram improdutivas por cerca de dez anos.
Em 18 de janeiro de 1972, por meio do Decreto nº 69.956, as terras foram desapropriadas e passaram a pertencer ao INCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária. Foi então criado o Projeto de Assentamento Integrado de Colonização (PIC) Sarandi, que destinou a área para o reassentamento de 51 famílias vindas de Ibirubá/RS, expulsas de suas propriedades pela construção da Hidrelétrica de Passo Real.
Figura 06 - Certidão de Transmissão - Ano 1972. Arquivo Histórico do Município do Pontão/RS
Cada família recebeu entre 24 e 46 hectares de terra. A execução do projeto foi coordenada pelo Engenheiro Agrônomo Ernesto Enio Budke Krug, responsável pela emancipação do PIC Sarandi. Essa emancipação só foi possível após a implementação de doze programas, incluindo educação, habitação, comercialização de produtos, produção de hortifrutigranjeiros, produção de grãos, aquisição de maquinário e outros. Durante todo o processo, houve acompanhamento técnico do INCRA, com visitas regulares às famílias.
Para garantir a viabilidade das pequenas propriedades e a preservação ambiental, em vez de cada propriedade destinar uma parte do solo para preservação da mata, foi criada uma reserva conjunta para todos os parceleiros. Trata-se da Reserva de Mata Nativa da Sagrisa (APP), com 402 hectares, destinada à preservação da biodiversidade. Essa reserva passou a ser cuidada e fiscalizada pelos próprios assentados.
Com o tempo, todos os parceleiros receberam os títulos de propriedade de suas glebas, após o pagamento das parcelas ao longo de 25 anos. Também foi delimitado espaço na comunidade para a construção de igreja, escola, cooperativa e demais estruturas de uso coletivo.
Apesar da recente invasão de um grupo indígena na reserva, não há registros históricos ou indícios de ocupação indígena permanente na região, conforme apontou estudo antropológico da Funai e segundo relatos de moradores pioneiros, herdeiros da antiga Fazenda Sagrisa e ex-funcionários da propriedade.
Terra em disputa: a escalada das invasões indígenas em Pontão – RS
As invasões indígenas em áreas produtivas e legalmente registradas no município de Pontão – RS, com cadeia dominial consolidada há mais de dois séculos, registra episódios recentes que merecem destaque.
No ano de 2005, verificou-se a primeira invasão da propriedade rural pertencente à família Tagliari por indivíduos autodeclarados descendentes da etnia Kaingang. A segunda invasão foi no ano de 2013, onde os indígenas acamparam na beira da estrada RS-324 Km149. Pela terceira vez, em 09 de julho de 2024, nova ocorrência foi registrada, ocasião em que o mesmo grupo realizou acampamento às margens da RS-324, proferindo ameaças e causando apreensão aos produtores rurais da região e, ato continuo, deslocaram-se das margens da RS-324 e invadiram a Área de Preservação Permanente – APP – Reserva de Mata Nativa da Sagrisa, onde permanecem até o presente momento.
A principal reivindicação apresentada pelo grupo consiste na alegação da existência de um cemitério indígena situado entre as comunidades de Lagoa Bonita e Bugre Morto. Todavia, tal assertiva não encontra respaldo histórico ou documental.
Pesquisas históricas, bem como depoimentos de moradores e registros bibliográficos, indicam que o referido local foi cenário de um importante episódio da Revolução Federalista de 1893: o Combate do Pontão, ocorrido em 1º de junho de 1894, a aproximadamente 9 km da atual sede municipal, na direção de Passo Fundo.
Conforme relata Monteiro (2011, p. 104), tratou-se de um embate entre a Divisão do Norte, regressando do Paraná reforçada pela Brigada Santos Filho, e uma avançada maragata, cujo objetivo era atrair os legalistas a uma posição estratégica para posterior ataque de lança seca, o qual viria a ocorrer dias mais tarde, no Combate dos Três Passos.
Ainda que a tradição oral mencione sepultamento de combatentes no local, não há registro de mortos ou feridos indígenas, tampouco indícios da existência de aldeamento na região.
Dessa forma, à luz da documentação histórica e da ausência de comprovação material, conclui-se que: Não há evidências da existência de cemitério indígena na área em questão; O território correspondente ao atual município de Pontão jamais foi reconhecido como terra indígena, como pode ser verificado na Figura 07; Os episódios recentes configuram ocupação indevida de propriedade privada, causando insegurança jurídica e prejuízos às atividades produtivas legalmente estabelecidas.
Figura 07 - Fonte: Mapa da Ocupação do Território Gaúcho. SEPLAG-DEPLAN.
O entendimento mais tradicional sobre os Kaingang é de que se mantiveram nômades, tendo uma economia sazonal entre o planalto e o litoral (PIVETTA, 2016).
Como pode ser visto na Figura 08.
Figura 08 - Fonte: FUNAI, 2000. ISA, 2001. Tomazinho, K. Apeart/Uel,2001
Na atual disputa por terras, os agricultores alegam legitimidade por possuírem escrituras reconhecidas pelo Estado. Argumentam que a reivindicação indígena nasce de conflitos internos por poder nas reservas (Figura 09). Afirmam reiteradamente sua condição de agricultores familiares para demarcar sua importância como produtores de alimentos e para referendar que não são grandes proprietários em circunstâncias muito superiores a dos indígenas no que se refere a posses e poder.
Figura 09 - Fonte: Destaque da localização no mapa do Rio Grande do Sul onde se encontram os municípios que abrigam as Terras Indígenas reivindicadas na mesorregião noroeste do Rio Grande do Sul. BARBOSA (2022)
Os agricultores, donos de suas terras, conquistadas com muito trabalho e dedicação, afirmam que não promovem desequilíbrios ambientais e que a produção de alimentos é fundamental para o país (KUJAWA, 2014, MACHADO; NODARI; WINCKLER, 2018).
Reivindicam a necessidade de debate sobre o que se considera “territorialidade tradicional” e “cultura indígena”, bem como revisão dos processos de destinação de terra aos indígenas. (Figura 10).
Figura 10 - Fonte: Research Gate. Disponível em: https://www.researchgate.net/figure/Figura-1-Mapa-com-a-localizacao-dos-toldos-indigenas-nas-regioes-norte-e-noroeste-do-Rio
Os agricultores, também defendem que novas reservas deveriam ser feitas pelo Estado através da aquisição de grandes propriedades improdutivas, viabilizando assim ações de reforma agrária.
Acerca da comprovação de que nunca houve habitação permanente de indígenas em Pontão – RS, faz prova o Estudo Antropológico de 2005, patrocinado pela própria FUNAI, corroborado pelo parecer dos renomados juristas Ives Gandra da Silva Martins e Walter Erich Piekny, bem como pelas razões de decidir do TRF4, nos autos do processo nº 5021124-48.20134.04.0000, evento 2, conforme pode ser observado (Figura 11):
A constatação da ausência de tradicionalidade indígena sobre a área ocupada e a informação técnica no sentido de que as famílias ocupantes do imóvel privado invadido já foram beneficiadas com terra indígena demarcada pela FUNAI (conclusão do Laudo Antropológico) indicam a pertinência na manutenção da decisão objurgada, notadamente para evitar indesejadas confrontações na região.
Por fim, cabe registrar que esse levantamento da história de Pontão-RS não é exaustivo. Trata-se de um apanhado de fatos históricos, documentados, que dão conta da formação do município de Pontão – RS.
Anexo I: parecer dos juristas Ives Gandra da Silva Martins e Walter Erich Piekny;
Anexo II: Estudo Antropológico de 2005 da FUNAI.
Anexos III: depoimentos e vídeo sobre o CTG, cortesia da Voz TV.
Este levantamento teve a participação de:
- Luis Fernando da Silva - Prefeito Municipal
- Beatriz Formigheri Casteli – Secretária da Educação
- Tabata Bortoluzzi Dall Oglio – Secretária Adjunta da Educação
- Aline do Carmo
- Marisa Brugnera Nunes
- Maurício Fernando Mühl
- Rodrigo Carassa
- Glenda Mirela Martins
- Jane Matilde Flores Antunes
- Joelci Antunes
- Marcos Ubiratã Flores
Bibliografia
BARBOSA, Daniele Cavichioli. Isso aqui não tem espaço pra todo mundo, não: a soja e a disputa por terras entre os kaingang e agricultores familiares na mesorregião noroeste rio-grandense. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Faculdade de Ciências Económicas, Programa de Pós-Graduação em Desenvolvimento Rural, Porto Alegre. 2022.
BECKER, Ítala Basile. O índio Kaigáng no Rio Grande do Sul. São Leopoldo: Editora da Unisinos, 1975.
Valas remanescentes da demarcação. Disponível em: https://curraldelrei.blogspot.com/2011/12/valas-remanescentes-da-demarcacao.html Acesso em: 25 out. 2025.
DIAS de Oliveira, L. — “O Caminho das Tropas” / artigos sobre a formação das rotas e povoamento dos Campos. cipaheritagedocumentation.org
DICKEL, Simone Lopes. O Processo Histórico de Reforma Agrária na Fazenda Annoni, Da Desapropriação à (Re)apropriação Privada da Terra. Passo Fundo: Acervus, 2023, P.135.
HERBERTS, A. L. (2009). Arqueologia do Caminho das Tropas (PUCRS) — dissertação sobre ocupação e vestígios das rotas tropeiras no RS. Repositório PUCRS
A Origem da Rota dos Tropeiros: A Partir do Rio Grande do Sul. Ivan Mendes, 2024. Disponível em: https://lobi.com.br/a-origem-da-rota-dos-tropeiros/. Acesso em: 17 set. 2025.
MONTEIRO, Paulo DS (2011). Combates da Revolução Federalista em Passo Fundo. Passo Fundo: Projeto Passo Fundo, E-book (2013); 110 páginas.
Relatório de estudo de fundamentação antropológica da área denominada Pontão, no município de Pontão-RS. Disponível em: https://www.pontao.rs.gov.br/attachments/article/119/RELATORIO%20DE%20ESTUDOS%20ANTROPOLOGICOS.pdf. Acesso em: 10 jul. 2025.
Mapa com a localização dos toldos indígenas nas regiões norte e noroeste do Rio Grande do Sul. Disponível em: https://www.researchgate.net/figure/Figura-1-Mapa-com-a-localizacao-dos-toldos-indigenas-nas-regioes-norte-e-noroeste-doRio_fig1_347822858 . Acesso em: 23 jul. 2019.
KUJAWA, H. A. Conflitos territoriais envolvendo indígenas e agricultores no norte do Rio Grande do Sul, a trajetória de políticas públicas contraditórias. 2014. Tese (Doutorado em Ciências Sociais) – Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 2014.
KUJAWA, Henrique. Conflitos territoriais envolvendo indígenas e agricultores: uma análise histórica e jurídica de políticas públicas contraditórias. Curitiba: CRV, 2015.
KUJAWA, Henrique. LEVANTAMENTOS PRELIMINARES PARA A REALIZAÇÃO DE UMA PERICIA FUNDIÁRIA NO MUNICÍPIO DE PONTÃO. Pontão, Rio Grande de Sul. 2015.
MACHADO, Ironita Policarpo; NODARI, Eunice S.; WINCKLER, Silvana. Indígenas, quilombolas e agricultores: história e conflitos agrários no sul do Brasil. Passo fundo: Ed. Universidade de Passo Fundo, 2018.
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PIVETTA, Marcos. Agricultores e sedentários. Revista Pesquisa, v. 252. 2016. Disponível em: https://revistapesquisa.fapesp.br/wp-content/uploads/2017/02/078083_proto-je_252.pdf/. Acesso em: 23 ago. 2025.
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TOMAZINHO, K. Apeart/Uel,2001.